FÊMEA, FEMININO, MULHER
Marco Aurélio Baggio
Honrai
as mulheres!
Elas
traçam e tecem
Rosas
celestiais para a vida na terra;
Trançam
os laços beatíficos do amor,
E na
graça dos véus de seu leve recato,
Com
mãos abençoadas animam, vigilantes,
O fogo
duradouro de belos sentimentos.
Schiller – 1759-1805
Dignidade
das Mulheres
in Poesias.
A natureza houve por bem evoluir para células dotadas de núcleo, onde se
dispõem o patrimônio genético e o autopoiético das células. Criou os gametas ou
células germinais, haplóides, que têm metade do patrimônio genético das células
diplóides que constituem o organismo. Células sexuais são, portanto, haplóides.
Células provenientes de um macho buscam e encontram células fêmeas para formar
o zigoto ou ovo, que dá origem ao desenvolvimento de um novo ser vivo. Embrião,
depois feto.
Sexo. Sexualidade. A natureza criou a divisão sexual para que pudesse
haver diferenciação, evolução, complexificação e variedade de vida.
Ou, na
visão bíblica:
Macho e fêmea os criou.
Em 1975, a ONU instituiu o “Dia
Internacional da Mulher”, em homenagem a essa especial metade da humanidade.
Mulher é femealidade: contornos curvilíneos, adiposidades, maciez,
passividade, submissão, procriação. É feminilidade: doçura, receptividade,
acolhimento, ternura, capacidade de sustentar longas tarefas. Beleza, charme,
sedutividade.
Mulher é fêmea: significa receber dentro de si o apêndice do macho,
sustentar os embates do coito. Gozar, ao ser possuída, possuindo.
Mulher é mãe: gesta, gera, pare, amamenta, acalenta, cuida, nutre,
sustenta. Primeira e última instância. Atávica, mucosa, viscosa, encarnada. Mãe
é fruição em tempos largos. Gostosos e ressarcidores.
Mulher é companheira. Doce, meiga, amiga, compassiva, estimuladora.
Capaz, sensitiva, intuitiva, séria, empenhada.
Mulher é deusa. Formosura, encanto, mistério. Alvo da cobiça e do desejo
masculino. Inalcançável, no entanto sempre à mão.
Mulher é boa. Como primeira
educadora da humanidade, é o leite da bondade da mulher que mitiga a fome, a miséria e a fúria do filhote da espécie
humana.
A mulher é centrada em si mesma: ela é, apenas em si, fundada em seus
ciclos biológicos naturais.
A mulher é toda. Completa, integrada, inteirada. Natureza natural, cíclica, estável em sua instabilidade, a
mulher é base, jazigo, fundamento, raiz e porto; posto de sustentação afetiva e
base de abastecimento nutricional. Ela sabe que não há livre-arbítrio: o ciclo
menstrual, o ritmo inflexível da procriação são condenações estabelecidas pela
natureza.
La
donna è mobile
Qual piuma al vento
Muta d’accento
E
de pensier.
Sempre
un amabile
Leggiadro viso
In pianto o in riso
É menzogner.
A mulher pode ser terrível:
Górgona, (Medusa), Medéia, Moira, Nêmesis, Megera. Ou maravilhosa: as três
Graças Aglaia (brilho), Eufrosina (júbilo), Tália (florescimento).
Ela é a fabricante primeva. Dá e sustenta a vida.
Mulher torna-se, faz-se ao longo dos embates eróticos na novela romântica
do envolvimento com o homem. Ela vai, ela vem, em um circunvolteante vir-a-ser,
até que encontra um homem que a faça ser. Ainda que, muitas vezes, hoje, nem
dele precisa.
Qual o desejo da mulher? Tornar-se mulher, talvez para ser descoberta e
colhida por um homem. O que quer a mulher? Vir a ser mulher. Desejada, amada,
colhida pelo homem que ela escolhe para ser seu. A mulher deseja, tal qual o
homem, possuir a liberdade de escolher os caminhos que melhor lhe convém.
Nela tudo é emoção, afeto, sensibilidade, coração, até quando usa a
cabeça e lida com a razão.
As mulheres são as primeiras educadoras do gênero humano. Domesticam e
civilizam – ensinam civilidade aos brutos homens.
Uma civilização se gradua pelo modo como dá atenção, decência,
consideração e oportunidades de realização às suas mulheres.
Mulheres amam o amor. Amam serem amadas. Amando, são mais lassas, mais
enfunadas e mais fiéis.
Mulher espera. Parece boa. É boa. Caridosa. Compassiva. Gentil, amena,
solidária.
A mulher é toda. Ctônica. Cresce por dentro, por intussuscepção. Um corpo
que é um facho sexual todo erótico.
A mulher é contínua, tátil, indireta, enviesada, tergiversa, envolvente.
Vive em lalarilá: em rêverie.
Vaporosa. Diz não!, dizendo sim.
Ela sabe que o homem é quem quer. Ela é apenas uma mulher. Mas a chave da
concessão do ato é dela .
Para ela, a atração é sutil, mágica que aciona seu afeto, estação de
passagem obrigatória que pode desembocar no sexo.
A mulher é o sexo frágil.
A fragilidade é uma arma poderosa.
A mulher é o sexo forte: dotação cromossômica sexual completa: XX. Detém patrimônio genético completo. Vive
mais 5 a 7 anos que seu homem.
Ela é mais competente no campo afetivo. É muito mais hábil ao esgrimir
afetos, sentimentos, vivências e narrar fatos que o homem. Em decorrência de
sua pressão de fala, muitas vezes fala demais e desnecessariamente.uporta
melhor as dores, as decepções e os reveses da vida. É mais resiliente aos
azares da existência .
Possui inteligência verbal muito superior à do homem. Possui uma pressão
de fala que a faz falar por demais, tantas vezes.
Goza toda. Orgasmo longo, extenso, absoluto. Goza mais subentrantemente.
É superior no amor, mais sofisticada eroticamente que o homem.
Elas têm filhos e cuidam deles. E isso é a maior grande garantia para a
perenidade da espécie humana.
Mulher é acolhimento, gestação, generosidade, compassividade. Cuida dos
filhos com dadivosidade. Terna, doce, amena. Macia, fofa, confortável, sustenta
as fúrias e a estupidez das pulsões humanas.
Possui uma inteligência emocional que a capacita a resolver bem as
conflitantes situações humanas. São tolerantes, dedicadas, sabem perdoar.
Possuem uma inteligência súbita, abarcante, intuitiva, que é um espanto.
Instruídas pelo estrógeno, o hormônio do recolhimento e da generosidade
exercida em dadivosidade a fundo perdido, as mulheres são habitualmente seres
melhores que os homens.
A função-mãe estabelece os alicerces da sociedade. A função-pai
disciplina e normatiza a civilização.
Homem? é sujeito que gosta de mulher.
Mulher? é a segunda melhor metade da humanidade.
Mulheres são as guardiãs do lar. Esteios da família.
A mulher vem-se apropriando de sua vertente masculina, o que permitiu que
saísse da situação depreciativa que a onerou durante milênios.
Dois terços das citações bíblicas e das referências dos autores clássicos
são denegridoras da mulher. Isso traduz o medo e a ignorância do homem sobre as
potencialidades de sua mulher.
Mulheres têm a mesma capacidade de julgar, acertar e cometer erros que os
homens. Agora que elas conquistaram quase as mesmas experiências do mundo e os
mesmos contatos com as coisas da vida, demonstram ter capacidade de realizar
trabalho eficaz e de operar negócios com talento. Desde que tenham as mesmas
oportunidades e acesso ao mesmo treinamento. Brilham nos salões da sociedade e
podem acrescentar uma visão de qualidade humana quando ascendem ao governo.
Problemas ?
O arrocho financeiro que todos vivemos no Brasil.
Existem 35 milhões de mulheres no mercado de trabalho brasileiro .
O maravilhoso mundo da liberdade, do trabalho e da realização masculina,
tão desejável e, para elas,
aparentemente tão fascinante, existe e é penetrável, mas não é tão gratificante
quanto parecia.
A rapadura do mundo masculino é
doce, mas não é mole não!
O brilhante mundo masculino é extremamente desgastante. Mulheres são
ingênuas no que se refere à experiência existencial. Incautas, acham que podem
fazer tudo simultaneamente.
Assumiram carga extra de trabalho e de encargos:
·
Tripla jornada de trabalho.
·
Dúzias de tarefas e de desempenhos.
Em razão disso, surtam de
pura exaustão.
Muitas, tolas, impõem-se uma coreografia louca de Plástica – Dieta –
Ginástica – Cremes – Salões – Moda – Mensagens – Viagens – Filhos - Amores – Negócios-- Felicidade.
Absolutamente incompatíveis e insustentáveis.
A mulher se tiraniza para permanecer bela, jovem, desejável e busca atingir um ideal de beleza, que é
contrário à tirania da passagem do tempo pela biologia do seu corpo.
Por fim, descobre que:
· o
amor é decepcionante;
· a
vida profissional é uma canseira;
· a
velhice é uma perseguição renhida da qual não há escape;
· o
homem não é aquele seguro farol de referência que ela, pressurosamente, supôs;
· os
filhos são agressivos, ingratos e vão embora.
Assim surgiu a inquieta e infeliz, agressiva e neurótica mulher moderna,
buscando, caoticamente, “seus direitos” e, avidamente, “sua felicidade”, que se
lhe escapam pelas rugas e pelos dedos, a cada ano que passa.
Com tudo isso, ainda assim, macho a que estou condenado a ser, digo:
Mulher é a única coisa que presta nesse mundo
desmastriado.
Mulher é rosa: Muito mais feliz na
terra é a rosa que destilar se deixa do que quantas no espinho virgem crescem,
vivem, morrem em sua solitária beatitude.
William Shakespeare.. [1595-1596]. Ato I, Cena I: Teseu.
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