sexta-feira, 23 de agosto de 2013

FÊMEA, FEMININO, MULHER


FÊMEA, FEMININO, MULHER

 Marco Aurélio Baggio

 

 

Honrai as mulheres!

Elas traçam e tecem

Rosas celestiais para a vida na terra;

Trançam os laços beatíficos do amor,

E na graça dos véus de seu leve recato,

Com mãos abençoadas animam, vigilantes,

O fogo duradouro de belos sentimentos.

 

Schiller – 1759-1805

Dignidade das Mulheres

  in Poesias.

 

A natureza houve por bem evoluir para células dotadas de núcleo, onde se dispõem o patrimônio genético e o autopoiético das células. Criou os gametas ou células germinais, haplóides, que têm metade do patrimônio genético das células diplóides que constituem o organismo. Células sexuais são, portanto, haplóides. Células provenientes de um macho buscam e encontram células fêmeas para formar o zigoto ou ovo, que dá origem ao desenvolvimento de um novo ser vivo. Embrião, depois feto.

Sexo. Sexualidade. A natureza criou a divisão sexual para que pudesse haver diferenciação, evolução, complexificação e  variedade de  vida. Ou,  na  visão bíblica:

 Macho e fêmea os criou.

 Em 1975, a ONU instituiu o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem a essa especial metade da humanidade.

Mulher é femealidade: contornos curvilíneos, adiposidades, maciez, passividade, submissão, procriação. É feminilidade: doçura, receptividade, acolhimento, ternura, capacidade de sustentar longas tarefas. Beleza, charme, sedutividade.

Mulher é fêmea: significa receber dentro de si o apêndice do macho, sustentar os embates do coito. Gozar, ao ser possuída, possuindo.

Mulher é mãe: gesta, gera, pare, amamenta, acalenta, cuida, nutre, sustenta. Primeira e última instância. Atávica, mucosa, viscosa, encarnada. Mãe é fruição em tempos largos. Gostosos e ressarcidores.

Mulher é companheira. Doce, meiga, amiga, compassiva, estimuladora. Capaz, sensitiva, intuitiva, séria, empenhada.

Mulher é deusa. Formosura, encanto, mistério. Alvo da cobiça e do desejo masculino. Inalcançável, no entanto sempre à mão.

 Mulher é boa. Como primeira educadora da humanidade, é o leite da bondade da mulher que mitiga a fome,  a miséria e a fúria do filhote da espécie humana.

A mulher é centrada em si mesma: ela é, apenas em si, fundada em seus ciclos biológicos naturais.

A mulher é toda. Completa, integrada, inteirada. Natureza natural,  cíclica, estável em sua instabilidade, a mulher é base, jazigo, fundamento, raiz e porto; posto de sustentação afetiva e base de abastecimento nutricional. Ela sabe que não há livre-arbítrio: o ciclo menstrual, o ritmo inflexível da procriação são condenações estabelecidas pela natureza.

Mulher?  A dama é móvel, mutável, inconstante. Assim também entendeu Verdi:*

                      La donna è mobile

                               Qual piuma al vento

                                Muta d’accento

                                E de pensier.

                                Sempre un amabile

                                Leggiadro viso

                                In pianto o in riso

                                É menzogner.

 

 A mulher pode ser terrível: Górgona, (Medusa), Medéia, Moira, Nêmesis, Megera. Ou maravilhosa: as três Graças Aglaia (brilho), Eufrosina (júbilo), Tália (florescimento).

Ela é a fabricante primeva. Dá e sustenta a vida.

Mulher torna-se, faz-se ao longo dos embates eróticos na novela romântica do envolvimento com o homem. Ela vai, ela vem, em um circunvolteante vir-a-ser, até que encontra um homem que a faça ser. Ainda que, muitas vezes, hoje, nem dele precisa.

Qual o desejo da mulher? Tornar-se mulher, talvez para ser descoberta e colhida por um homem. O que quer a mulher? Vir a ser mulher. Desejada, amada, colhida pelo homem que ela escolhe para ser seu. A mulher deseja, tal qual o homem, possuir a liberdade de escolher os caminhos que melhor lhe convém.

Nela tudo é emoção, afeto, sensibilidade, coração, até quando usa a cabeça e lida com a razão.

As mulheres são as primeiras educadoras do gênero humano. Domesticam e civilizam – ensinam civilidade aos brutos homens.

Uma civilização se gradua pelo modo como dá atenção, decência, consideração e oportunidades de realização às suas mulheres.

Mulheres amam o amor. Amam serem amadas. Amando, são mais lassas, mais enfunadas e mais fiéis.

Mulher espera. Parece boa. É boa. Caridosa. Compassiva. Gentil, amena, solidária.

A mulher é toda. Ctônica. Cresce por dentro, por intussuscepção. Um corpo que é um facho sexual todo erótico.

A mulher é contínua, tátil, indireta, enviesada, tergiversa, envolvente. Vive em lalarilá: em rêverie. Vaporosa. Diz não!, dizendo sim.

Ela sabe que o homem é quem quer. Ela é apenas uma mulher. Mas a chave da concessão do ato é dela .

Para ela, a atração é sutil, mágica que aciona seu afeto, estação de passagem obrigatória que pode desembocar no sexo.

A mulher é o sexo frágil.

A fragilidade é uma arma poderosa.

A mulher é o sexo forte: dotação cromossômica sexual completa: XX.  Detém patrimônio genético completo. Vive mais 5 a 7 anos que seu homem.

Ela é mais competente no campo afetivo. É muito mais hábil ao esgrimir afetos, sentimentos, vivências e narrar fatos que o homem. Em decorrência de sua pressão de fala, muitas vezes fala demais e desnecessariamente.uporta melhor as dores, as decepções e os reveses da vida. É mais resiliente aos azares da existência .

Possui inteligência verbal muito superior à do homem. Possui uma pressão de fala que a faz falar por demais, tantas vezes.

Goza toda. Orgasmo longo, extenso, absoluto. Goza mais subentrantemente.

É superior no amor, mais sofisticada eroticamente que o homem.

Elas têm filhos e cuidam deles. E isso é a maior grande garantia para a perenidade da espécie humana.

  Mulher é acolhimento, gestação, generosidade, compassividade. Cuida dos filhos com dadivosidade. Terna, doce, amena. Macia, fofa, confortável, sustenta as fúrias e a estupidez das pulsões humanas.

Possui uma inteligência emocional que a capacita a resolver bem as conflitantes situações humanas. São tolerantes, dedicadas, sabem perdoar. Possuem uma inteligência súbita, abarcante, intuitiva, que é um espanto.

Instruídas pelo estrógeno, o hormônio do recolhimento e da generosidade exercida em dadivosidade a fundo perdido, as mulheres são habitualmente seres melhores que os homens.

A função-mãe estabelece os alicerces da sociedade. A função-pai disciplina e normatiza a civilização.

Homem? é sujeito que gosta de mulher.

Mulher? é a segunda melhor metade da humanidade.

Mulheres são as guardiãs do lar. Esteios da família.

A mulher vem-se apropriando de sua vertente masculina, o que permitiu que saísse da situação depreciativa que a onerou durante milênios.

Dois terços das citações bíblicas e das referências dos autores clássicos são denegridoras da mulher. Isso traduz o medo e a ignorância do homem sobre as potencialidades de sua mulher.

Mulheres têm a mesma capacidade de julgar, acertar e cometer erros que os homens. Agora que elas conquistaram quase as mesmas experiências do mundo e os mesmos contatos com as coisas da vida, demonstram ter capacidade de realizar trabalho eficaz e de operar negócios com talento. Desde que tenham as mesmas oportunidades e acesso ao mesmo treinamento. Brilham nos salões da sociedade e podem acrescentar uma visão de qualidade humana quando ascendem ao governo.

Problemas ?

O arrocho financeiro que todos vivemos no Brasil.

Existem 35 milhões de mulheres no mercado de trabalho brasileiro .

O maravilhoso mundo da liberdade, do trabalho e da realização masculina, tão desejável  e, para elas, aparentemente tão fascinante, existe e é penetrável, mas não é tão gratificante quanto parecia.

A rapadura do mundo masculino  é doce, mas não é mole não!

O brilhante mundo masculino é extremamente desgastante. Mulheres são ingênuas no que se refere à experiência existencial. Incautas, acham que podem fazer tudo simultaneamente.

Assumiram carga extra de trabalho e de encargos:    

·        Tripla jornada de trabalho.

·        Dúzias de tarefas e de desempenhos.

         Em razão disso, surtam de pura exaustão.

Muitas, tolas, impõem-se uma coreografia louca de Plástica – Dieta – Ginástica – Cremes – Salões – Moda – Mensagens – Viagens – Filhos  - Amores – Negócios-- Felicidade.

Absolutamente incompatíveis e insustentáveis.

A mulher se tiraniza para permanecer bela, jovem, desejável  e busca atingir um ideal de beleza, que é contrário à tirania da passagem do tempo pela biologia do seu corpo.

Por fim, descobre que:

· o amor é decepcionante;

· a vida profissional é uma canseira;

· a velhice é uma perseguição renhida da qual não há escape;

· o homem não é aquele seguro farol de referência que ela, pressurosamente, supôs;

· os filhos são agressivos, ingratos e vão embora.

Assim surgiu a inquieta e infeliz, agressiva e neurótica mulher moderna, buscando, caoticamente, “seus direitos” e, avidamente, “sua felicidade”, que se lhe escapam pelas rugas e pelos dedos, a cada ano que passa.

Com tudo isso, ainda assim, macho a que estou condenado a ser, digo:

Mulher é a única coisa que presta nesse mundo desmastriado.

 

         Mulher é rosa: Muito mais feliz na terra é a rosa que destilar se deixa do que quantas no espinho virgem crescem, vivem, morrem em sua solitária beatitude.

William Shakespeare.. [1595-1596]. Ato I, Cena I: Teseu.



* Verdi. Rigoletto. Ato 3. “La donna è mobile.”

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