sexta-feira, 23 de agosto de 2013

MALDIÇÕES FEMININAS


MALDIÇÕES FEMININAS


 

Marco Aurélio Baggio


 

                                 E no longo capítulo das mulheres,
                         / Senhor, tende piedade das mulheres.[1]
 

           

A primeira maldição feminina é querer ser amada. Dito assim, parece inadequado. Deixa de ser, quando implica a espera de ser escolhida e destacada entre todas as outras mulheres. Significa ter segurança, ser protegida, cuidada, ter a sua vida conduzida pelo discernimento do amante e, além disso, mais que tudo, espera ser paparicada o tempo todo.

            A segunda maldição da mulher é estar convencida de que detém atributos narcísicos especiais.

            Mulheres são seres mais narcísicos em relação a seu corpo e a sua pessoa do que os homens. Isso determina uma postura de constante expectativa de que irá receber suprimentos de auto-estima acima do que seria razoável.

            A terceira maldição decorre da segunda. Mulheres tendem a dar crédito a todo aquele que lhe diga que é uma pessoa absolutamente especial. Tornam-se facilmente envolvidas por D. Juans, homens sedutores que lhes sussurram coisas doces de ouvir e que ninguém lhes dissera antes, tais como:

            “Suas mãos são inspiradoras...”

            “Seus olhos... um lago profundo onde mergulho e me perco..”

            “Você me emociona... mexe comigo... me tira do sério...”

            “Seu cheiro... seu perfume... me deixam atordoado...”

            “Ninguém tem esse cheiro como o seu...”

            “Preciso tanto de você...”

            A quarta maldição feminina provém da absoluta fragilidade, quando um sujeito cicia:

            “– Você é a mulher da minha vida...”

            O “abre-te coxas” mais certeiro é o tão comum e tão lugar-comum: “– Eu te amo...”

            A quinta maldição deriva da presunção de que, a qualquer momento, vai pintar um belo, simpático, poderoso cavaleiro, de nome Ricardo, que se interessará em “salvá-la”. Aí, então, tornar-se-á “rainha” do mundo.

            A sexta maldição feminina tem por base o princípio de que o homem tem o poder, o saber, a direção, o dinheiro e os meios para sustentá-la e para conduzi-la, confortavelmente, pela vida afora. Ela aprendeu que ele detém o falo: a força, o poder, o saber fazer. Enfim, quanto mais imatura e histérica a mulher, mais ela presumirá que o BOM que lhe falta lhe será dado pelo homem.

            A sétima maldição relaciona-se com a enorme expectativa feminina de que “seu homem” está interessado em fazê-la feliz. Pensam assim, sobretudo, as modernistas e as feministas, ferozes cobradoras, convictas de o homem vive para servi-las. Vivem, agem como se fosse a única missão, a exclusiva função do macho estar 36 horas por dia empenhados na nobre tarefa de atendê-las e fazê-las “felizes”. Se não, vituperam ou choram.

            A oitava maldição decorre do fato de que, uma vez estabelecido e estabilizado o relacionamento amoroso, toda mulher se arroga a tarefa de querer consertar “seu homem”. Terrível, isso: todas querem apurar a elegância, aprimorar os hábitos, corrigir falas e posturas de seu companheiro.

            Custa-lhes aprender que o homem adulto, heterossexualizado, não dá reforma. Nem por amor a ela.

            Nona maldição: a mulher precisa sentir-se desejada para começar a desejar. Molha a calcinha três, cinco minutos depois de ele já estar de pau duro.

            Camille Paglia acerta um direto no maxilar quando diz que, hoje, as mulheres “querem tudo”. Direitos, empregos, facilidades, amor, beleza, cirurgias, viagens, salários, oportunidades, mordomias, filhos, cortesia, distinção. De graça. Fácil e barato. A tempo e a hora. Senão, choram. Essa é a décima maldição que a mulher enfrenta.

            Jack Nicholson, no mesmo diapasão, diz que a mulher é quase igualzinha ao homem: é só tirar dela a conseqüência e a responsabilidade, fica igual ao homem.

            Mulheres são maravilhosos seres que vivem em révèrie, num delicioso minueto de faz-de-conta, em uníssono lalarilá.

            Décima primeira maldição é que as mulheres são seres de língua e de fala incoercíveis. Seu esporte predileto é falar, falar, falar, falar, duas, três, um grupo, um bando de mulheres todas falando “abobrinhas” simultaneamente. E, incrível, todas se entendendo.

            A maioria das mulheres tem dificuldade de saber o que fazer com elas mesmas. Nisso, parecem-se também com muitos homens. Passam pela vida sem conseguir conceber um projeto de vida. Nesse comportamento indeciso e falho está a décima segunda maldição.


            A décima terceira maldição baseia-se no fato de que a mulher detém um complicado código de barras de acesso a sua intimidade. Preciosas, complexas, levam o homem à loucura, à brutalidade ou à desistência, quando este se empenha, sem êxito, na decodificação dos segredos femininis. “Quem entende as mulheres?”

            Terrível maldição – décima quarta –: Cinderela torna-se Psique, amante de Eros, e, com o transcorrer do tempo, transforma-se em Medéia, Medusa, Górgona.

            A delicada e deliciosa jovem cheia de frescor, querida e vaidosa, com o passar do tempo, pode tornar-se esposa ansiosa, inquieta, magoada e ressentida. Amante desconfiada e insegura. Desgastada, vira uma mocréia, fálica e querelante. Desagradável.

            Décima quinta maldição: a mulher só se sente realizada se se casa, tem filhos, consegue manter o marido e desfrutar de uma vida social em que pode distinguir-se por possuir uma “família equilibrada”. Com orgulho, pode dizer: “O meu marido... os meus filhos... a minha empregada...” Ela tem tudo. Tudo gira em torno dela.

            A décima sexta maldição é que as mulheres procuram desesperadamente um homem “especial”. Em Belo Horizonte, havia sete. Um efeminizou-se, outro enviadou-se, um terceiro foi para São Paulo, um quarto se casou, um quinto sumiu, o sexto faliu e o último que restou sou eu, que já não estou mais disponível.
            A décima sétima maldição provém do fato de que a exibição de fraqueza por parte da mulher tende a despertar a sanha e a agressividade do homem. Essa agressividade masculina pode, um dia, voltar-se contra ela na forma de delírios de ciúmes, restrição de autonomia, maus tratos e até violência física.


[1] MORAES, Vinícius de. “Elegia desesperada.” In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S. A., 1986, p. 173.

FÊMEA, FEMININO, MULHER


FÊMEA, FEMININO, MULHER

 Marco Aurélio Baggio

 

 

Honrai as mulheres!

Elas traçam e tecem

Rosas celestiais para a vida na terra;

Trançam os laços beatíficos do amor,

E na graça dos véus de seu leve recato,

Com mãos abençoadas animam, vigilantes,

O fogo duradouro de belos sentimentos.

 

Schiller – 1759-1805

Dignidade das Mulheres

  in Poesias.

 

A natureza houve por bem evoluir para células dotadas de núcleo, onde se dispõem o patrimônio genético e o autopoiético das células. Criou os gametas ou células germinais, haplóides, que têm metade do patrimônio genético das células diplóides que constituem o organismo. Células sexuais são, portanto, haplóides. Células provenientes de um macho buscam e encontram células fêmeas para formar o zigoto ou ovo, que dá origem ao desenvolvimento de um novo ser vivo. Embrião, depois feto.

Sexo. Sexualidade. A natureza criou a divisão sexual para que pudesse haver diferenciação, evolução, complexificação e  variedade de  vida. Ou,  na  visão bíblica:

 Macho e fêmea os criou.

 Em 1975, a ONU instituiu o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem a essa especial metade da humanidade.

Mulher é femealidade: contornos curvilíneos, adiposidades, maciez, passividade, submissão, procriação. É feminilidade: doçura, receptividade, acolhimento, ternura, capacidade de sustentar longas tarefas. Beleza, charme, sedutividade.

Mulher é fêmea: significa receber dentro de si o apêndice do macho, sustentar os embates do coito. Gozar, ao ser possuída, possuindo.

Mulher é mãe: gesta, gera, pare, amamenta, acalenta, cuida, nutre, sustenta. Primeira e última instância. Atávica, mucosa, viscosa, encarnada. Mãe é fruição em tempos largos. Gostosos e ressarcidores.

Mulher é companheira. Doce, meiga, amiga, compassiva, estimuladora. Capaz, sensitiva, intuitiva, séria, empenhada.

Mulher é deusa. Formosura, encanto, mistério. Alvo da cobiça e do desejo masculino. Inalcançável, no entanto sempre à mão.

 Mulher é boa. Como primeira educadora da humanidade, é o leite da bondade da mulher que mitiga a fome,  a miséria e a fúria do filhote da espécie humana.

A mulher é centrada em si mesma: ela é, apenas em si, fundada em seus ciclos biológicos naturais.

A mulher é toda. Completa, integrada, inteirada. Natureza natural,  cíclica, estável em sua instabilidade, a mulher é base, jazigo, fundamento, raiz e porto; posto de sustentação afetiva e base de abastecimento nutricional. Ela sabe que não há livre-arbítrio: o ciclo menstrual, o ritmo inflexível da procriação são condenações estabelecidas pela natureza.

Mulher?  A dama é móvel, mutável, inconstante. Assim também entendeu Verdi:*

                      La donna è mobile

                               Qual piuma al vento

                                Muta d’accento

                                E de pensier.

                                Sempre un amabile

                                Leggiadro viso

                                In pianto o in riso

                                É menzogner.

 

 A mulher pode ser terrível: Górgona, (Medusa), Medéia, Moira, Nêmesis, Megera. Ou maravilhosa: as três Graças Aglaia (brilho), Eufrosina (júbilo), Tália (florescimento).

Ela é a fabricante primeva. Dá e sustenta a vida.

Mulher torna-se, faz-se ao longo dos embates eróticos na novela romântica do envolvimento com o homem. Ela vai, ela vem, em um circunvolteante vir-a-ser, até que encontra um homem que a faça ser. Ainda que, muitas vezes, hoje, nem dele precisa.

Qual o desejo da mulher? Tornar-se mulher, talvez para ser descoberta e colhida por um homem. O que quer a mulher? Vir a ser mulher. Desejada, amada, colhida pelo homem que ela escolhe para ser seu. A mulher deseja, tal qual o homem, possuir a liberdade de escolher os caminhos que melhor lhe convém.

Nela tudo é emoção, afeto, sensibilidade, coração, até quando usa a cabeça e lida com a razão.

As mulheres são as primeiras educadoras do gênero humano. Domesticam e civilizam – ensinam civilidade aos brutos homens.

Uma civilização se gradua pelo modo como dá atenção, decência, consideração e oportunidades de realização às suas mulheres.

Mulheres amam o amor. Amam serem amadas. Amando, são mais lassas, mais enfunadas e mais fiéis.

Mulher espera. Parece boa. É boa. Caridosa. Compassiva. Gentil, amena, solidária.

A mulher é toda. Ctônica. Cresce por dentro, por intussuscepção. Um corpo que é um facho sexual todo erótico.

A mulher é contínua, tátil, indireta, enviesada, tergiversa, envolvente. Vive em lalarilá: em rêverie. Vaporosa. Diz não!, dizendo sim.

Ela sabe que o homem é quem quer. Ela é apenas uma mulher. Mas a chave da concessão do ato é dela .

Para ela, a atração é sutil, mágica que aciona seu afeto, estação de passagem obrigatória que pode desembocar no sexo.

A mulher é o sexo frágil.

A fragilidade é uma arma poderosa.

A mulher é o sexo forte: dotação cromossômica sexual completa: XX.  Detém patrimônio genético completo. Vive mais 5 a 7 anos que seu homem.

Ela é mais competente no campo afetivo. É muito mais hábil ao esgrimir afetos, sentimentos, vivências e narrar fatos que o homem. Em decorrência de sua pressão de fala, muitas vezes fala demais e desnecessariamente.uporta melhor as dores, as decepções e os reveses da vida. É mais resiliente aos azares da existência .

Possui inteligência verbal muito superior à do homem. Possui uma pressão de fala que a faz falar por demais, tantas vezes.

Goza toda. Orgasmo longo, extenso, absoluto. Goza mais subentrantemente.

É superior no amor, mais sofisticada eroticamente que o homem.

Elas têm filhos e cuidam deles. E isso é a maior grande garantia para a perenidade da espécie humana.

  Mulher é acolhimento, gestação, generosidade, compassividade. Cuida dos filhos com dadivosidade. Terna, doce, amena. Macia, fofa, confortável, sustenta as fúrias e a estupidez das pulsões humanas.

Possui uma inteligência emocional que a capacita a resolver bem as conflitantes situações humanas. São tolerantes, dedicadas, sabem perdoar. Possuem uma inteligência súbita, abarcante, intuitiva, que é um espanto.

Instruídas pelo estrógeno, o hormônio do recolhimento e da generosidade exercida em dadivosidade a fundo perdido, as mulheres são habitualmente seres melhores que os homens.

A função-mãe estabelece os alicerces da sociedade. A função-pai disciplina e normatiza a civilização.

Homem? é sujeito que gosta de mulher.

Mulher? é a segunda melhor metade da humanidade.

Mulheres são as guardiãs do lar. Esteios da família.

A mulher vem-se apropriando de sua vertente masculina, o que permitiu que saísse da situação depreciativa que a onerou durante milênios.

Dois terços das citações bíblicas e das referências dos autores clássicos são denegridoras da mulher. Isso traduz o medo e a ignorância do homem sobre as potencialidades de sua mulher.

Mulheres têm a mesma capacidade de julgar, acertar e cometer erros que os homens. Agora que elas conquistaram quase as mesmas experiências do mundo e os mesmos contatos com as coisas da vida, demonstram ter capacidade de realizar trabalho eficaz e de operar negócios com talento. Desde que tenham as mesmas oportunidades e acesso ao mesmo treinamento. Brilham nos salões da sociedade e podem acrescentar uma visão de qualidade humana quando ascendem ao governo.

Problemas ?

O arrocho financeiro que todos vivemos no Brasil.

Existem 35 milhões de mulheres no mercado de trabalho brasileiro .

O maravilhoso mundo da liberdade, do trabalho e da realização masculina, tão desejável  e, para elas, aparentemente tão fascinante, existe e é penetrável, mas não é tão gratificante quanto parecia.

A rapadura do mundo masculino  é doce, mas não é mole não!

O brilhante mundo masculino é extremamente desgastante. Mulheres são ingênuas no que se refere à experiência existencial. Incautas, acham que podem fazer tudo simultaneamente.

Assumiram carga extra de trabalho e de encargos:    

·        Tripla jornada de trabalho.

·        Dúzias de tarefas e de desempenhos.

         Em razão disso, surtam de pura exaustão.

Muitas, tolas, impõem-se uma coreografia louca de Plástica – Dieta – Ginástica – Cremes – Salões – Moda – Mensagens – Viagens – Filhos  - Amores – Negócios-- Felicidade.

Absolutamente incompatíveis e insustentáveis.

A mulher se tiraniza para permanecer bela, jovem, desejável  e busca atingir um ideal de beleza, que é contrário à tirania da passagem do tempo pela biologia do seu corpo.

Por fim, descobre que:

· o amor é decepcionante;

· a vida profissional é uma canseira;

· a velhice é uma perseguição renhida da qual não há escape;

· o homem não é aquele seguro farol de referência que ela, pressurosamente, supôs;

· os filhos são agressivos, ingratos e vão embora.

Assim surgiu a inquieta e infeliz, agressiva e neurótica mulher moderna, buscando, caoticamente, “seus direitos” e, avidamente, “sua felicidade”, que se lhe escapam pelas rugas e pelos dedos, a cada ano que passa.

Com tudo isso, ainda assim, macho a que estou condenado a ser, digo:

Mulher é a única coisa que presta nesse mundo desmastriado.

 

         Mulher é rosa: Muito mais feliz na terra é a rosa que destilar se deixa do que quantas no espinho virgem crescem, vivem, morrem em sua solitária beatitude.

William Shakespeare.. [1595-1596]. Ato I, Cena I: Teseu.



* Verdi. Rigoletto. Ato 3. “La donna è mobile.”