MALDIÇÕES FEMININAS
Marco Aurélio Baggio
E
no longo capítulo das mulheres,
/ Senhor, tende
piedade das mulheres.[1]
A primeira
maldição feminina é querer ser amada. Dito assim, parece inadequado. Deixa
de ser, quando implica a espera de ser escolhida e destacada entre todas as
outras mulheres. Significa ter segurança, ser protegida, cuidada, ter a sua
vida conduzida pelo discernimento do amante e, além disso, mais que tudo,
espera ser paparicada o tempo todo.
A
segunda maldição da mulher é estar convencida de que detém
atributos narcísicos especiais.
Mulheres
são seres mais narcísicos em relação a seu corpo e a sua pessoa do que os
homens. Isso determina uma postura de constante expectativa de que irá receber
suprimentos de auto-estima acima do que seria razoável.
A
terceira maldição decorre da segunda. Mulheres tendem a dar crédito a
todo aquele que lhe diga que é uma pessoa absolutamente especial. Tornam-se
facilmente envolvidas por D. Juans, homens sedutores que lhes sussurram coisas
doces de ouvir e que ninguém lhes dissera antes, tais como:
“Suas
mãos são inspiradoras...”
“Seus
olhos... um lago profundo onde mergulho e me perco..”
“Você me emociona... mexe comigo... me tira do sério...”
“Seu
cheiro... seu perfume... me deixam atordoado...”
“Ninguém
tem esse cheiro como o seu...”
“Preciso
tanto de você...”
A
quarta maldição feminina provém da absoluta fragilidade, quando um
sujeito cicia:
“–
Você é a mulher da minha vida...”
O “abre-te coxas” mais certeiro é o
tão comum e tão lugar-comum: “– Eu te amo...”
A
quinta maldição deriva da presunção de que, a qualquer momento, vai
pintar um belo, simpático, poderoso cavaleiro, de nome Ricardo, que se
interessará em “salvá-la”. Aí, então, tornar-se-á “rainha” do mundo.
A
sexta maldição feminina tem por base o princípio de que o homem tem o
poder, o saber, a direção, o dinheiro e os meios para sustentá-la e para
conduzi-la, confortavelmente, pela vida afora. Ela aprendeu que ele detém o falo:
a força, o poder, o saber fazer. Enfim, quanto mais imatura e histérica a
mulher, mais ela presumirá que o BOM que lhe falta lhe será dado pelo homem.
A
sétima maldição relaciona-se com a enorme expectativa feminina de que
“seu homem” está interessado em fazê-la feliz. Pensam assim, sobretudo, as
modernistas e as feministas, ferozes cobradoras, convictas de o homem vive para
servi-las. Vivem, agem como se fosse a única missão, a exclusiva função do
macho estar 36 horas por dia empenhados na nobre tarefa de atendê-las e
fazê-las “felizes”. Se não, vituperam ou choram.
A
oitava maldição decorre do fato de que, uma vez estabelecido e
estabilizado o relacionamento amoroso, toda mulher se arroga a tarefa de querer
consertar “seu homem”. Terrível, isso: todas querem apurar a elegância,
aprimorar os hábitos, corrigir falas e posturas de seu companheiro.
Custa-lhes aprender que o homem adulto,
heterossexualizado, não dá reforma. Nem por amor a ela.
Nona
maldição: a mulher precisa sentir-se desejada para começar a desejar. Molha
a calcinha três, cinco minutos depois de ele já estar de pau duro.
Camille
Paglia acerta um direto no maxilar quando diz que, hoje, as mulheres “querem
tudo”. Direitos, empregos, facilidades, amor, beleza, cirurgias, viagens,
salários, oportunidades, mordomias, filhos, cortesia, distinção. De graça.
Fácil e barato. A tempo e a hora. Senão, choram. Essa é a décima maldição
que a mulher enfrenta.
Jack
Nicholson, no mesmo diapasão, diz que a mulher é quase igualzinha ao homem: é
só tirar dela a conseqüência e a responsabilidade, fica igual ao homem.
Mulheres
são maravilhosos seres que vivem em révèrie, num delicioso minueto de
faz-de-conta, em uníssono lalarilá.
Décima
primeira maldição é que as mulheres são seres de língua e de fala
incoercíveis. Seu esporte predileto é falar, falar, falar, falar, duas, três,
um grupo, um bando de mulheres todas falando “abobrinhas” simultaneamente. E,
incrível, todas se entendendo.
A
maioria das mulheres tem dificuldade de saber o que fazer com elas mesmas.
Nisso, parecem-se também com muitos homens. Passam pela vida sem conseguir
conceber um projeto de vida. Nesse comportamento indeciso e falho está a décima
segunda maldição.
A
décima terceira maldição baseia-se no fato de que a mulher detém um
complicado código de barras de acesso a sua intimidade. Preciosas, complexas,
levam o homem à loucura, à brutalidade ou à desistência, quando este se
empenha, sem êxito, na decodificação dos segredos femininis. “Quem entende as
mulheres?”
Terrível
maldição – décima quarta –: Cinderela torna-se Psique, amante de Eros,
e, com o transcorrer do tempo, transforma-se em Medéia, Medusa, Górgona.
A
delicada e deliciosa jovem cheia de frescor, querida e vaidosa, com o passar do
tempo, pode tornar-se esposa ansiosa, inquieta, magoada e ressentida. Amante
desconfiada e insegura. Desgastada, vira uma mocréia, fálica e querelante.
Desagradável.
Décima
quinta maldição: a mulher só se sente realizada se se casa, tem filhos,
consegue manter o marido e desfrutar de uma vida social em que pode
distinguir-se por possuir uma “família equilibrada”. Com orgulho, pode dizer:
“O meu marido... os meus filhos... a minha empregada...”
Ela tem tudo. Tudo gira em torno dela.
A
décima sexta maldição é que as mulheres procuram desesperadamente um
homem “especial”. Em Belo Horizonte, havia sete. Um efeminizou-se, outro
enviadou-se, um terceiro foi para São Paulo, um quarto se casou, um quinto
sumiu, o sexto faliu e o último que restou sou eu, que já não estou mais
disponível.
A décima
sétima maldição provém do fato de que a exibição de fraqueza por parte da
mulher tende a despertar a sanha e a agressividade do homem. Essa agressividade
masculina pode, um dia, voltar-se contra ela na forma de delírios de ciúmes,
restrição de autonomia, maus tratos e até violência física.
[1] MORAES, Vinícius de.
“Elegia desesperada.” In: Poesia completa e prosa. Rio de
Janeiro: Editora Nova Aguilar S. A., 1986, p. 173.